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A Evolução da Governança de Dados Capítulo 3 — O maior erro da Governança talvez seja acreditar que Ownership é um cargo

Comunicação
10 de set.
4 min de leitura
Tereza Cristina é voluntária na DAMA Brasil
Tereza Cristina é voluntária na DAMA Brasil

Olá, governantes!®


Os dois primeiros capítulos desta série provocaram uma discussão interessante. Ao defender que a Governança precisa deixar de ser um programa paralelo para fazer parte da rotina operacional das organizações e que ela deve nascer junto com os Produtos de Dados, uma pergunta surgiu repetidamente nas conversas que tive nos últimos dias: afinal, quem é o responsável por garantir que isso aconteça? Quase sempre a resposta veio de forma imediata: o Data Owner.


Essa resposta é compreensível. Durante muitos anos, a Governança de Dados consolidou a definição de papéis como um dos seus principais mecanismos de sustentação.


Organizações investiram tempo na criação de matrizes de responsabilidade, diferenciaram funções como Data Owner, Data Steward e Data Custodian e passaram a associar a existência desses papéis à própria maturidade da Governança. 


Esse movimento representou um avanço importante, afinal, antes dele, era comum que ninguém soubesse quem deveria responder por um dado, decidir sobre uma regra de negócio ou assumir a responsabilidade por um problema de qualidade.


No entanto, à medida que os ambientes de dados se tornaram mais distribuídos e a construção de Produtos de Dados passou a fazer parte da rotina das organizações, comecei a perceber um padrão que se repetia com frequência. 


Os papéis estavam formalmente definidos, os organogramas refletiam uma estrutura aparentemente consistente e os documentos de Governança indicavam claramente quem era o responsável por cada domínio. Apesar disso, bastava acompanhar o desenvolvimento de um novo Produto de Dados para perceber que as decisões mais importantes continuavam acontecendo sem um modelo claro de responsabilização.


A escolha de uma regra de negócio, a definição dos critérios mínimos de qualidade, a aprovação de uma mudança em um indicador estratégico, a priorização de uma evolução no produto ou mesmo a autorização para disponibilizar determinado conjunto de dados a novos consumidores dificilmente eram decisões tomadas porque existia um Data Owner nomeado. 

Na prática, elas aconteciam em reuniões de projeto, discussões técnicas, alinhamentos entre áreas ou negociações de negócio. Em outras palavras, aconteciam durante a operação.


Foi justamente observando essa dinâmica que comecei a questionar uma ideia que, durante muito tempo, considerei suficiente. Talvez o maior desafio das organizações não seja definir quem é o Data Owner. Talvez o verdadeiro desafio seja tornar explícito quem decide o quê ao longo do ciclo de vida de um Produto de Dados.


Essa diferença muda completamente a perspectiva, quando reduzimos Ownership a um cargo, concentramos nossa atenção na estrutura organizacional, quando entendemos Ownership como um modelo de decisão, passamos a olhar para a forma como a organização funciona. 


O foco deixa de ser a existência de um responsável formal e passa a ser a capacidade de garantir que toda decisão relevante possua alguém legitimamente responsável por tomá-la.


Essa distinção parece sutil, mas explica por que tantas iniciativas de Governança encontram dificuldades mesmo depois de formalizar papéis. A presença de um Data Owner no organograma não elimina, por si só, dúvidas sobre quem pode alterar uma regra de negócio, aprovar uma mudança em um pipeline ou decidir sobre a evolução de um Produto de Dados.


Se essas decisões continuam dependendo de interpretações individuais ou de negociações improvisadas, o problema não está na ausência de um cargo. Está na ausência de um modelo de responsabilização incorporado à operação.


Essa reflexão também ajuda a explicar por que organizações mais maduras raramente discutem Ownership apenas sob a ótica dos papéis, elas reconhecem que diferentes decisões pertencem a diferentes competências. O negócio responde pelas regras e pelo valor gerado, a engenharia responde pela implementação técnica, a arquitetura define princípios que garantem consistência ao ecossistema, a plataforma sustenta a operação, a Governança coordena essas responsabilidades para que todas elas aconteçam de forma alinhada. 


Não existe um único responsável por tudo; existem responsabilidades claramente distribuídas, cada uma exercida no momento em que a decisão precisa ser tomada.


Talvez seja exatamente essa a diferença entre uma organização que possui Governança e outra que simplesmente possui um programa de Governança. Na primeira, as responsabilidades fazem parte da rotina de trabalho. Na segunda, elas permanecem registradas em documentos que raramente são consultados quando a operação exige decisões rápidas.


Sempre que converso com líderes de dados, gosto de fazer uma pergunta bastante simples: se amanhã uma regra crítica de negócio precisar ser alterada, todos saberão exatamente quem deve decidir? A resposta para essa pergunta costuma revelar muito mais sobre a maturidade da Governança do que qualquer indicador de quantidade de Data Owners nomeados ou ativos catalogados.


Talvez seja esse o verdadeiro significado de Ownership, não um título atribuído a uma pessoa, mas a capacidade organizacional de garantir que nenhuma decisão importante sobre um Produto de Dados aconteça sem responsabilidade, contexto e propósito claramente definidos, quando isso ocorre, a Governança deixa de depender da intervenção constante de uma área especializada e passa a fazer parte da forma como a organização trabalha.


E talvez seja justamente aí que esteja a sua maior contribuição para o negócio, não em controlar decisões, mas em garantir que elas aconteçam com clareza, responsabilidade e confiança.


No próximo capítulo, avançaremos mais um passo nessa discussão. 

Se Ownership precisa estar presente durante toda a construção de um Produto de Dados, como fazer com que a Governança participe desse processo sem criar novas etapas, aprovações ou burocracias? 


A resposta está menos na criação de controles adicionais e mais na forma como o próprio processo de desenvolvimento é concebido, é sobre essa mudança de perspectiva que conversaremos no próximo capítulo, quando discutiremos o conceito de Governança by Design.



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