A Evolução da Governança de Dados Capítulo 1 - A Governança de Dados deixou de ser um programa?

Olá, governantes!®
As organizações nunca produziram, compartilharam e consumiram tantos dados quanto produzem hoje.
A transformação digital ampliou a quantidade de sistemas, acelerou o desenvolvimento de produtos digitais, distribuiu a tomada de decisão entre diferentes equipes e tornou os dados parte essencial da operação. Eles deixaram de servir apenas como insumo para relatórios gerenciais e passaram a sustentar aplicações em tempo real, produtos digitais, modelos de inteligência artificial e decisões que acontecem continuamente em toda a organização.
Essa mudança alterou profundamente a forma como as empresas operam. Arquiteturas distribuídas, plataformas de dados, pipelines automatizados, APIs, analytics self-service e produtos de dados reduziram o tempo entre a criação e o consumo da informação. O ciclo de vida dos dados tornou-se mais dinâmico, mais descentralizado e significativamente mais complexo. O que antes era produzido por poucas equipes especializadas passou a ser construído diariamente por diferentes áreas, cada uma contribuindo para um ecossistema cada vez mais integrado.
Curiosamente, enquanto a operação evoluiu em velocidade, a forma como muitas organizações estruturam sua Governança de Dados permaneceu praticamente inalterada.
Em grande parte dos casos, a Governança continua sendo tratada como um programa paralelo à operação, uma iniciativa responsável por definir políticas, estruturar papéis, implantar catálogos, promover fóruns de decisão e acompanhar indicadores de conformidade. Essas iniciativas continuam sendo importantes e representam a base de uma boa gestão de dados. O ponto de reflexão não está na sua relevância, mas na forma como são inseridas na rotina da organização.
Em muitos projetos, primeiro os dados são modelados, os pipelines são desenvolvidos, os produtos entram em produção e começam a ser utilizados pelas áreas de negócio e somente depois surgem atividades como documentar metadados, classificar informações, definir responsáveis, revisar regras de qualidade ou atualizar o catálogo corporativo.
Quando esse fluxo se repete continuamente, a Governança passa a atuar sobre decisões que já foram tomadas, em vez de orientar a construção dos ativos de dados, dedica boa parte do seu esforço a organizar aquilo que já nasceu.
Não se trata de um problema de competência das equipes de Governança, tampouco da ausência de ferramentas ou de metodologias, poruqe na verdade, esse cenário é consequência de um modelo organizacional que fez sentido durante muitos anos. Em ambientes mais centralizados, com poucas fontes de dados, menor número de integrações e ciclos de mudança relativamente previsíveis, concentrar a Governança em uma área especializada era suficiente para manter consistência e controle sobre os ativos de informação.
Hoje, entretanto, as decisões relacionadas aos dados acontecem em uma velocidade incompatível com esse modelo. Cada novo pipeline, cada produto de dados, cada integração entre sistemas, cada modelo analítico e cada solução baseada em inteligência artificial incorpora decisões sobre qualidade, segurança, compartilhamento, retenção, acesso, responsabilidade e uso das informações. Essas decisões deixaram de ocorrer apenas nos fóruns de Governança e passaram a fazer parte da rotina das equipes de engenharia, arquitetura, analytics e negócio.
Talvez seja justamente nesse ponto que esteja um dos maiores desafios da Governança de Dados na atualidade. Durante muito tempo, concentramos esforços em fortalecer estruturas de Governança, agora, talvez seja necessário concentrar esforços em fortalecer a capacidade da organização de governar seus dados durante a própria operação.
Essa mudança de perspectiva parece sutil, mas produz efeitos profundos. Quando a Governança é percebida como um programa, existe uma tendência natural de atribuir sua execução a uma área específica, mas,quando ela passa a fazer parte da operação, a responsabilidade deixa de estar concentrada em um único time e passa a ser compartilhada por todos aqueles que criam, transformam, disponibilizam, consomem e tomam decisões com dados.
A equipe de Governança continua exercendo um papel essencial, mas sua atuação torna-se menos operacional e mais estratégica, estabelecendo princípios, orientando decisões, promovendo alinhamento entre as áreas e criando condições para que as boas práticas aconteçam naturalmente ao longo do ciclo de vida dos dados.
Essa reflexão também nos leva a revisar a forma como avaliamos a maturidade da Governança. Durante muitos anos, indicadores como quantidade de ativos catalogados, políticas publicadas, papéis formalizados ou comitês estabelecidos foram utilizados como evidências da evolução dos programas de Governança. Esses elementos continuam sendo importantes, mas talvez não sejam suficientes para responder à pergunta que realmente importa: as práticas de Governança fazem parte da rotina da organização ou continuam acontecendo apenas depois que os dados já estão em produção?
Na minha experiência, essa é uma distinção que merece atenção crescente. Organizações maduras não são apenas aquelas que possuem processos bem documentados ou ferramentas sofisticadas. São aquelas em que a Governança deixa de ser percebida como uma atividade adicional e passa a integrar a forma como as pessoas trabalham. Ela está presente quando um produto de dados é concebido, quando um pipeline é desenvolvido, quando uma regra de negócio é definida, quando um modelo analítico é publicado ou quando uma decisão depende da confiança nas informações disponíveis. Em outras palavras, a Governança deixa de interromper a operação para passar a fazer parte dela.
Essa não é uma proposta para substituir modelos consolidados nem para reduzir a importância das práticas que sustentaram a evolução da Governança de Dados nas últimas décadas, pelo contrário, é um convite para refletirmos sobre como esses mesmos fundamentos podem acompanhar a transformação pela qual as organizações estão passando. A Governança continua sendo indispensável, o que precisa evoluir é a forma como ela participa da operação.
Nos próximos capítulos, ampliaremos essa discussão explorando onde essa transformação efetivamente começa.
Se a Governança precisa deixar de ser uma atividade paralela, qual é o primeiro elemento da operação que deve incorporá-la? Na minha visão, essa resposta está nos Produtos de Dados. É ali que muitas das decisões mais importantes sobre qualidade, responsabilidade, compartilhamento e geração de valor começam a ser tomadas, muito antes de qualquer catálogo ou comitê entrar em cena.



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