A Evolução da Governança de Dados Capítulo 2 – A Governança começa muito antes do catálogo

Olá, governantes!®
Durante muitos anos, aprendemos a associar o início da Governança de Dados à documentação dos ativos, à definição de responsabilidades ou à publicação de informações em um catálogo corporativo. Essa sequência fez sentido em um cenário onde os dados eram tratados como entregas de projetos específicos e evoluíam em um ritmo relativamente previsível.
Hoje, entretanto, a realidade é diferente, as organizações desenvolvem continuamente novos pipelines, disponibilizam informações para diferentes consumidores, integram aplicações em tempo real e criam soluções analíticas que passam a fazer parte da operação poucos dias após sua concepção. Nesse contexto, esperar que a Governança comece apenas depois da entrega significa abrir mão da oportunidade de influenciar as decisões mais importantes.
Quando um novo ativo de dados é criado, inúmeras escolhas já estão sendo feitas. Define-se quais informações serão capturadas, quais regras de negócio serão aplicadas, como os dados serão modelados, quem poderá acessá-los, quais critérios de qualidade serão utilizados, qual será a frequência de atualização, quais consumidores utilizarão aquele ativo e quais impactos um eventual problema poderá causar ao negócio. Nenhuma dessas decisões é neutra. Todas possuem implicações diretas sobre qualidade, segurança, confiabilidade, reutilização e geração de valor.
É justamente por isso que acredito que a Governança não começa quando o dado entra no catálogo, ela começa quando essas decisões começam a ser tomadas, essa reflexão nos leva naturalmente aos Produtos de Dados.
Independentemente da arquitetura adotada pela organização, um Produto de Dados representa muito mais do que uma tabela disponibilizada para consumo. Ele existe para resolver um problema de negócio, possui consumidores definidos, precisa entregar valor continuamente e depende de um conjunto de atributos que garantam sua confiabilidade ao longo do tempo.
Quando observamos um Produto de Dados sob essa perspectiva, percebemos que Governança deixa de ser uma atividade complementar, ela passa a ser um dos elementos que tornam o produto utilizável.
Imagine um produto desenvolvido para disponibilizar indicadores assistenciais a gestores hospitalares. Se as regras de cálculo não estiverem claramente definidas, se não houver responsáveis pela sua evolução, se a qualidade dos dados não for monitorada ou se mudanças ocorrerem sem critérios conhecidos, dificilmente esse produto continuará gerando confiança, independentemente da tecnologia utilizada para construí-lo.
O mesmo acontece em um banco que disponibiliza informações para análise de crédito, em uma indústria que acompanha indicadores operacionais ou em uma empresa de varejo que utiliza modelos de recomendação. Em todos esses cenários, a Governança deixa de ser percebida apenas como uma estrutura de controle e passa a representar uma condição necessária para que o próprio produto continue gerando valor.
Talvez esse seja um dos principais equívocos que ainda encontramos em muitas organizações: tratar Governança e Produto de Dados como iniciativas independentes.
Primeiro desenvolve-se o produto, depois documenta-se.
Primeiro disponibiliza-se a informação, depois discutem-se responsabilidades.
Primeiro o consumidor utiliza os dados, depois surgem as perguntas sobre qualidade, linhagem, classificação, acesso ou regras de negócio.
Quando isso acontece, a Governança passa a acompanhar a evolução do produto, mas dificilmente consegue influenciar suas decisões estruturantes.
Na prática, um Produto de Dados nasce no momento em que uma necessidade de negócio começa a ser transformada em uma solução baseada em dados, é exatamente nesse instante que decisões relacionadas à Governança também deveriam começar a acontecer.
Quem será responsável pela evolução desse produto?
Quais regras de negócio precisam estar documentadas?
Quais atributos de qualidade são indispensáveis?
Como esse ativo será monitorado?
Quem poderá utilizá-lo?
Quais outros produtos dependerão dele?
Essas perguntas não pertencem ao catálogo, elas pertencem ao próprio processo de construção, quando respondidas desde o início, deixam de representar atividades adicionais e passam a fazer parte da engenharia do produto.
Essa mudança parece simples, mas altera profundamente a forma como as organizações implementam Governança. Em vez de concentrar esforços para organizar ativos já existentes, passa-se a investir na construção de ativos que já nascem preparados para serem compartilhados, reutilizados e evoluídos.
É justamente nesse ponto que Governança deixa de ser percebida como um mecanismo de controle e passa a contribuir diretamente para a sustentabilidade dos Produtos de Dados.
Produtos maduros não são apenas aqueles que entregam informações corretas hoje. São aqueles capazes de continuar entregando valor ao longo do tempo, mesmo diante da evolução das regras de negócio, da entrada de novos consumidores, da expansão da plataforma ou da incorporação de novas tecnologias.
Essa capacidade não surge por acaso, ela é construída desde o primeiro desenho do produto.
Talvez, portanto, uma das perguntas mais importantes que possamos fazer antes de iniciar qualquer novo Produto de Dados seja bastante simples:
Quais práticas de Governança precisam nascer junto com este produto para que ele continue gerando valor daqui a um, dois ou cinco anos?
Responder essa pergunta desloca completamente o papel da Governança. Ela deixa de acompanhar o ciclo de vida dos Produtos de Dados e passa a fazer parte dele desde a sua origem.
No próximo capítulo ampliaremos essa discussão sob outra perspectiva.
Se a Governança precisa nascer junto com os Produtos de Dados, quem assume essa responsabilidade?
A resposta passa menos pela criação de novos cargos e muito mais pela compreensão de um conceito frequentemente simplificado nas organizações: Ownership.



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