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O poder das pequenas entregas: Como Programas de Governança de Dados conquistam engajamento e patrocínio executivo

  • Comunicação
  • 16 de jan.
  • 6 min de leitura

Em um cenário impulsionado pela IA, Programas de Governança de ainda lutam por engajamento. Pequenas entregas podem ser a chave para ganhar credibilidade.


Bergson Lopes - VP Geral, de Comunicação, Marketing e Eventos da DAMA Brasil
Bergson Lopes - VP Geral, de Comunicação, Marketing e Eventos da DAMA Brasil

Os primeiros Programas de Governança de Dados surgiram há mais de uma década. Naquele momento, muitos deles se apoiaram no impulso trazido pelo Big Data, consolidando-se como iniciativas necessárias para lidar com o crescimento exponencial dos dados. Em seguida, vieram as demandas relacionadas à Governança da Privacidade, guiadas pela LGPD e pela preocupação com o uso correto dos dados. Hoje, um dos grandes motivadores desses programas é a necessidade de preparar os dados para a Inteligência Artificial, garantindo que modelos sejam treinados com informações confiáveis, rastreáveis, éticas e alinhadas às regulações vigentes.


Apesar disso, mesmo sendo considerados fundamentais para a adoção adequada dessas novas tendências, muitos Programas de Governança de Dados ainda enfrentam dificuldades para conquistar apoio e patrocínio efetivo dentro das organizações, especialmente no nível executivo. Na minha visão, os motivos são diversos: desde a formação inadequada das equipes, passando pelo foco excessivamente técnico das iniciativas, até a falta de investimentos e esforços consistentes em aculturamento de dados.

Entretanto, há um fator adicional que observo com frequência: a dificuldade de evoluir o programa por meio de pequenas entregas, sejam elas estruturantes ou geradoras de valor.


De modo geral, muitos programas iniciam suas jornadas a partir da criação de políticas de dados e da execução de processos essencialmente técnicos da Gestão de Dados, e param por aí. Ignoram as dores, as expectativas e as necessidades reais das áreas de negócio e operações. Como resultado, o programa se comporta como uma estrutura interna voltada para si mesma, em vez de atuar como um mecanismo de habilitação para toda a organização.


Um Programa de Governança de Dados deve existir para garantir que os dados estejam aptos a viabilizar e sustentar as estratégias da empresa. E hoje, isso significa também estar aptos a suportar iniciativas de IA generativa, analítica preditiva e automações inteligentes. Ou seja, ele precisa ser muito mais estratégico do que operacional. É nesse ponto que se torna fundamental comprovar valor por meio de entregas estruturadas e alinhadas às prioridades de negócio.



As ações estruturantes e as ações de melhoria

As ações estruturantes são iniciativas que estabelecem as condições fundamentais para a prática da Governança de Dados. Exemplos incluem: definição dos termos de negócio, modelagem de dados dos sistemas legados, implantação de catálogos de dados, criação de metodologias e formalização de comitês. Na era da IA, ganham destaque também aspectos ligados à segurança e privacidade dos dados, definição das políticas de uso responsável e trilhas de auditoria.


Já as ações de melhoria são entregas de valor perceptível para as áreas de negócio. Elas contribuem diretamente para o aprimoramento das atividades dessas áreas ou para o cumprimento da estratégia corporativa. Exemplos: melhoria significativa na qualidade dos dados de contato dos clientes, integração de dados de diferentes unidades, entrega de plataformas de dados que ampliam a produtividade das equipes  ou ainda habilitação de casos de uso de IA com dados confiáveis e governados.


De forma geral, as pessoas têm dificuldade em reconhecer a importância das ações estruturantes, especialmente quando a cultura data driven ainda é baixa. Por outro lado, as entregas de valor são muito mais visíveis e mais fáceis de monetizar em termos de retorno sobre investimento. Porém, dependem necessariamente da existência das condições mínimas estabelecidas pelas iniciativas estruturantes.



A estratégia do Pilar x Ponte

Uma abordagem que gosto de adotar ao montar o backlog de entregas de Programas de Governança de Dados é a relação entre os pilares e a ponte.


Os pilares representam as iniciativas estruturantes, aquelas que sustentam e tornam possível o avanço do programa. Já a ponte representa as entregas visíveis, que geram valor tangível e transformam, de fato, a rotina das áreas de negócio.


Equilibrar ambos é essencial para que a organização compreenda, na prática, a importância da Governança de Dados e perceba como ela contribui tanto para a operação quanto para iniciativas estratégicas e mais avançadas, como casos de uso de Inteligência Artificial que dependem de dados confiáveis, auditáveis e bem compreendidos.


Em outras palavras, é a resposta concreta à pergunta: “Na era da IA, o que eu ganho com o Programa de Governança de Dados?”



A abordagem de trabalhar com pequenas entregas

A necessidade de provar o valor do Programa de Governança de Dados é contínua. Por isso, uma característica comum nas empresas que já possuem programas maduros e consistentes é a capacidade de manter uma rotina de entregas rápidas, sabendo dosar adequadamente os “pilares” e as “pontes”.


Nas etapas iniciais da implantação, é natural que o equilíbrio pese mais para as iniciativas estruturantes. Afinal, nenhuma ponte se sustenta sem pilares sólidos. Contudo, à medida que o programa avança, essa relação tende a se estabilizar. Quando atinge patamares mais elevados de maturidade, o número de pontes passa a ser maior, algumas delas não mais focadas apenas em resolver dores do negócio, mas em habilitar inovações orientadas por dados e IA.


Mas afinal, existe alguma regra mágica para equilibrar essas iniciativas? A resposta é simples: não existe uma fórmula mágica. Ainda assim, algumas diretrizes práticas ajudam muito.


Nos primeiros meses de Programa, é comum que praticamente não haja entregas de pontes. Por isso, é fundamental que boa parte das iniciativas estruturantes sejam concluída dentro desse período. Esse intervalo, em média de seis meses, é o tempo máximo que as áreas de negócio toleram esperar para ver resultados concretos, desde que entendam claramente que uma ponte só existe porque antes foram construídos os pilares. Vale ressaltar que nem todas as ações estruturantes necessárias são entregues neste período, mas sim as prioritárias.


A partir daí, uma boa prática é adotar uma dinâmica de duas ou três entregas estruturantes para cada entrega de valor (ponte). Com a evolução do Programa, a necessidade de ações estruturantes diminui, tornando possível trabalhar em uma proporção um para um. Mais adiante, à medida que o valor da Governança de Dados se torna evidente e reconhecido, o padrão pode ser invertido, priorizando mais entregas de melhoria do que estruturantes.



Mas afinal, quais os benefícios dessa abordagem?

Os benefícios são exatamente os fatores que executivos consideram na hora de decidir patrocinar uma iniciativa, evidências claras de que o investimento trará retorno real para a organização. Afinal, ninguém patrocina o que não acredita ou considera inviável.


A seguir, relaciono alguns dos principais benefícios que, quando comprovados, sensibilizam o C-level:


Clareza na jornada de dados: ter um planejamento adequado às realidades da empresa, com entregas bem definidas, alinhadas ao rumo corporativo e à estratégia de IA evitando gargalos e esforços desnecessários.


Evolução baseada em valor: Por meio da estratégia pilar x ponte, é possível comprovar a consistência do programa, demonstrando como ele habilita novas iniciativas, incluindo projetos de IA generativa e preditiva.


Redução de riscos e retrabalhos: Trabalhar com pequenas demandas, com escopos mais enxutos, diminui de forma significativa as incertezas e riscos associados à jornada, especialmente os riscos relacionados a vieses, qualidade e rastreabilidade dos dados usados em modelos de IA.


Agilidade para habilitar e ajustar casos de uso de IA: A adoção de pequenas entregas colabora com a prática de aprendizado contínuo e adaptação, permitindo que os times ajustem rapidamente requisitos, dados e processos necessários para suportar novas demandas com o uso de IA.


Credibilidade: A partir da capacidade do Programa ser acreditado com base nas competências demonstradas na jornada. Cada entrega bem-sucedida reforça a percepção de que o programa é sólido e necessário, algo essencial para iniciativas de IA que exigem governança constante.


Confiabilidade: O Programa consegue comprovar que realmente traz valor para a empresa. Esse benefício é um dos mais difíceis, pois representa o momento em que a organização reconhece que a Governança de Dados é indispensável, especialmente quando começa a apoiar a escala das soluções de IA em diferentes áreas.

 

Os Programas de Governança de Dados não precisam começar com grandes promessas, mas sim com pequenas entregas que provam seu valor ao longo da jornada. O equilíbrio entre pilares e pontes, combinado com a disciplina das pequenas entregas, transforma a Governança de Dados em um mecanismo prático de geração de valor, suportando as ambições da IA nas organizações.


Quando pilares sólidos sustentam pontes visíveis, o engajamento cresce, o patrocínio executivo se fortalece e a Governança de Dados deixa de ser um discurso para se tornar uma realidade.


Bergson Lopes Rego é Vice-presidente Geral, de Comunicação, Marketing e Eventos na DAMA Brasil.


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